29 ene. 2012

A sombra de Rosalía

Novo texto literario de Sechu Sende para GC.

“Os países sem lendas estám condeados a morrer de frio”
 
Patrice de la Tour du Pin
 
“Sombra de Axular, volverás á terra (…) onde permanecerás até o fim dos séculos”
 
Marc Légasse
Di-se que quando morreu
a poeta Rosalia
a sua sombra separou-se 
dela e desde aquel dia
vive entre nós como
umha sombra que tem vida.
 
Rosalia dixo-lhe á sombra
antes de fechar os olhos
para sempre, sonhando
o último dos seus sonhos:
- Vai, protege a nossa língua, 
o idioma do meu povo.
 
Vai de aldeia em aldeia,
vai, vai de vila em vila, 
de cidade em cidade,
sombra da minha vida,
defende dos inimigos
a vida da nossa língua.
 
Vai, minha sombrinha, vai,
da-lhe força á minha gente
para construír o idioma
cooperativamente,
com palavras insubmisas
como as dumha mulher valente.
 
E dixo-lhe Rosalia
á própria sombra dela
- Volve-te raíz, minha sombra,
caminha com os pés na terra
e entra nos sonhos do povo
para que sonhe com as estrelas.
 
E o dezaseis de julho
Rosalia foi para a tumba,
que em paz descanse, 
e a sombra de sombra pura
ao pé dum arco da velha
começou a aventura.
 
Começou a sua viagem.
no cemitério de Adina,
na ribeirinha do Sar,
a sombra de Rosalia
e despois de tantos anos
segue entre nós aínda.
 
Desde aquela viaja 
pola Galiza enteira.
Dizem que a sombra arrecende
a rosas, a laranxeiras,
a regatos e a fontes, 
a terra, sol e figueiras.
 
Se nom a viches aínda
e a queres conhecer
sempre podes intenta-lo: 
fecha os olhos para a ver.
É como qualquer sombra
e tem forma de mulher.
 
Tem umha saia de sombra
a sombra de Rosalia,
zapatos de escuridade
umha blusa ensombrecida
de todas as cores da sombra
na sombra da luz do dia.
 
A sombra de Rosalia
joga com as sombras das pombas
e sobre a sombra das nuves
a sombra ás vezes voa.
E quando chove leva
um paráguas de sombra.
 
Gosta da festa rachada,
das verbenas e os seráns,
dos festivais e concertos,
e dizem que a virom bailar
com o cantante de Zënzar
um agarrado e um vals.
 
A sombra de Rosalia
quando canta é feliz,
e dizem que, quando dormem,
canta-lhes cancións infantis
cheias de cores aos nenos
e nenas do nosso país.
Gosta de achegar-se aos berces
das crianças que estám a chorar
e recita-lhes poemas
que ninguém mais pode escoitar,
para aprenderem palavras
que nunca mais esquecerám
 
E desde aquela a sombra vai
viajando de sonho em sonho
das crianças que sempre falam
a língua do nosso povo
contando-lhes trabalínguas
lendas, cançons e contos.
 
A sombra de Rosalia
tamém entra nos sonhos
dos nenos que nom falam 
galego ou o falam pouco.
E assi na almofada deixa
palavras como tesouros
 
para todos os nenos e nenas
que vivem no país nosso
escritas em papeis de cores:
estrela, ninho, abesouro,
bágoa, eu, papaventos,
vacaloura, mol e tojo.
 
A sombra de Rosalia,
nos teus sonhos, quando dormes,
di-che os nomes dos paxaros,
das árvores e das flores,
dos animais e da chuva,
das emoçons e das cores.
 
Sempre agasalha palavras
a sombra de Rosalia
lengalengas, poesias
cantareas, adivinhas,
cançons da nossa naçom,
livros na nossa língua.
E a sombra de Rosalia
entra nos sonhos dos pais
e das mais que falam pouco
galego aos filhos e vai
e di-lhes no ouvido:
- Tedes que falar-lho mais.
 
Aos pais que nom lhes aprendem
a língua aos nenos e ás nenas
a sombra de Rosalia 
tira-lhes das orelhas.
Os galegos e galegas
falamos a língua da terra.
 
Ás vezes pode-se ver
a sombra de Rosalia
em qualquer momento
na rua, á luz do dia,
quando vas mercar pam
ou numha frutaria.
 
A sombra de Rosalia
hoje estivo com Inés
umha rapaza de Vigo
que vive no bairro de Teis
e hoje botou se a falar
galego por primeira vez.
 
A sombra da poeta di:
-A lingua é o meu fogar,
vivo nas vossas palavras
e vivo no vosso falar,
cada palabra é umha casa
que devemos cuidar.
 
Para mudar o futuro
fala-lhes galego sempre
aos nenos e nenas porque
o porvir depende deles
nom podes mudar o porvir
se nom cámbias o presente.
 
E os que nom falades aínda
a que estades esperando?
Caminhar é umha ventura
e o caminho fai-se andando
e a língua da Galiza
defendemo-la falando.
Falar é mui importante,
muito mais do que parece,
as palavras da Galiza
a Galiza enriquecem.
Se tu nom falas galego
o país se empobrece.
 
Há milheiros de persoas
a falar galego a diário,
homes, mulheres, nenos
que na rua, no trabalho
falamos como somos
e somos como falamos.
 
Escrevemos em galego
os nossos coraçons de amor,
falamo-lo no caminho
e nunca estamos sós,
porque a língua nos une e
da mao caminhamos melhor.
 
A sombra de Rosalia
é como foi Rosalia,
umha mulher rebelde
e luitadora que cria
que as palavras traem ao mundo
liberdade e justiça.
 
A sombra de Rosalia
em nós palavras acende
como estrelas na noite
ou faíscas que o lume prendem
e, como a nossa língua,
estará com nós por sempre.
 
Estará contigo sempre
a sombra de Rosalia
e irá contigo da mao
no caminho da tua vida
acompanhando os teus sonhos.
Viva o idioma!, viva a língua!

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